Coordenador do NEPE, PIBID de Geografia -FBJ, CoordenadorMestre e Doutor (Phd) em Geografia - UFPE

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Doutor em Geografia (stricto sensu) - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2012); Mestre em Gestão e Politicas Ambientais (stricto sensu) - UFPE (2009); Especialista em Ensino Superior de Geografia (lato Sensu) - Universidade de Pernambuco - UPE (1998); Licenciatura Plena em Geografia - Centro de Ensino Superior de Arcoverde - CESA (1985);   Coordenador do PIBID - Geografia Professor; Orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso - TCC, na Graduação e Pós-Graduação (Latu Sensu).

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

David Harvey comenta a atual crise do capitalismo.




David Harvey (GillinghamKent7 de dezembro de 1935) é um geógrafo marxista britânico, formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana.
Seu primeiro livro, Explanation in Geography, publicado em 1969, versa sobre a epistemologia da geografia, ainda no paradigma da chamadageografia quantitativa. Posteriormente, Harvey muda o foco de sua atenção para a problemática urbana, a partir de uma perspectiva materialista-dialética. Publica então Social Justice and the City no início da década de 1970, onde confronta o paradigma liberal e o paradigma marxista na análise dos problemas urbanos. Seu livro seguinte, The Limits to Capital, é um denso estudo do pensamento econômico de Marx.
 FONTE: WIKIPEDIA, and by Youtbe.  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Lei de Acesso à Informação no Brasil beneficiou as pesquisas em Geografia.



Atlas da Geografia – Milton Santos

A Lei de Acesso à Informação no Brasil beneficiou as pesquisas em Geografia,  entre os documentos liberados destaca-se o Atlas Milton Santos.

Leia e veja como baixar o atlas.

O QUE É A LEI DA INFORMAÇÃO?

A Lei nº 12.527, sancionada pela Presidenta da República em 18 de novembro de 2011, tem o propósito de regulamentar o direito constitucional de acesso dos cidadãos às informações públicas e seus dispositivos são aplicáveis aos três Poderes da União, Estados, Distrito Federal e Municípios. 

A publicação da Lei de Acesso a Informações significa um importante passo para a consolidação democrática do Brasil e também para o sucesso das ações de prevenção da corrupção no país. Por tornar possível uma maior participação popular e o controle social das ações governamentais, o acesso da sociedade às informações públicas permite que ocorra uma melhoria na gestão pública.

No Brasil, esse  direito de acesso à informação pública já era  previsto na constituição Federal, no artigo 5º, inciso XXXIII do Capítulo I - dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos – quando afirma:

“todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”.

A Constituição também tratou do acesso à informação pública no Art. 5º, inciso XIV, Art. 37, § 3º, inciso II e no Art. 216, § 2º. São estes os dispositivos que a Lei de Acesso a Informações regulamenta, estabelecendo requisitos mínimos para a divulgação de informações públicas e procedimentos para facilitar e agilizar o seu acesso por qualquer pessoa.

COMO A GEOGRAFIA FOI BENEFICIADA?

O Atlas Geográfico Brasileiro Milton Santos, antes da lei de Acesso a Informação ser aprovada era vendido na loja do IBGE e custava  R$ 330,00 o que eu particularmente considero um absurdo, uma vez que o IBGE é um órgão publico e funciona a custa do imposto que nos pagamos. 

Mas infelizmente no Brasil , ainda prevalece o coronelismo travestido de funcionários publico, esses por sua vez acaba agindo como se o  patrimônio publico fosse uma propriedade particular ou de um partido politico.  Infelizmente é esse tipo de carracismo dosado de mentalidade atrasada que se entrou, cresceu e se enraizou  contaminando o serviço publico brasileiro, um grupo politico incompetente que se utiliza dos mais primitivos meios para cercear o acesso ao bem publico, talvez esteja ai a razão do absurdo de utilizar esse expediente  de cobrar para acessar um serviço que é de direito do povo brasileiro.


 Dese modo a  contra censo, foi preciso se valer dos requisitos  presente na constituição no que diz respeito ao direito a informação. Assim, em conformidade e cumprimento da Lei de Acesso à Informação o ATLAS acabou sendo liberado para download. Porém, a forma como IBGE liberou foi maliciosa, fragmentaram o  ATLAS em onze partes, o que não é correto, porque essa condição técnica que  torna o serviço de download complexo e demorado. Assim fica aqui a advertência. Quem quiser baixar o atlas fragmentado deve utilizar o site da loja do IBGE, porém alguns blog já é possível baixar o Atlas completo como veremos na conclusão desse artigo.
Do Atlas:
O Atlas Nacional do Brasil Milton Santos publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi coordenado pela professora Adma Hamam de Figueiredo, e conta com a excelente apresentação de Bertha Becker Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 303 paginas,  548 mapas, 76 gráficos, oito tabelas, seis fotos e 14 imagens de satélite, atualiza informações geográficas sobre o território brasileiro. Entre os destaques, estão os mapas referentes Esboço geológico,  Riscos Ambientais, Regionalização, Espaços geoeconômicos, Mudanças no espaço rural, Redes geográficas, logística , território, etc, enfim um acervo bastante completo. 

Figura 1: O IBGE fez uma fez uma justa homenagem ao nomear o Atlas Nacional do Brasil -Milton Santos (1926-2001) ao usar o seu nome no titulo. Fonte: IBGE.  

O Atlas reúne informações geográficas, cartográficas e estatísticas que revelam as várias questões e escalas que envolvem a dinâmica espacial do Espaço Geográfico do Brasil contemporâneo e retratam as alterações ocorridas em sua configuração territorial na última década. Os mapas, tabelas e gráficos são acompanhados de textos elaborados por especialistas que analisam as múltiplas diversidades do País sob perspectivas variadas a luz dos postulados miltoniano.
O Atlas do IBGE sempre foi denominado de Atlas Nacional do Brasil, só a partir de 2005, cinco anos apos o falecimento de Milton Santos em 2001, passando a ser nomeado de Atlas Nacional do Brasil Milton Santos, conforme disposto na Lei nº11159, de 2 de agosto de 2005. O Atlas reitera a afinidade existente entre a missão do IBGE e a visão geográfica miltoniana de um espaço dinâmico em constante transformação ao longo da escala temporal. A abrangência do temário proposto enfatiza a valiosa contribuição de outras Instituições no sentido da complexa articulação de temas que envolve, na atualidade, o conhecimento do território brasileiro.

Ainda de acordo com o IBGE, a primeira obra desse tipo foi lançada pelo instituto em 1959, com o nome de Atlas do Brasil. Em 1966, uma nova edição intitulada Atlas Nacional do Brasil trouxe atualização dos dados em algumas folhas. Em seguida, o IBGE lançou três publicações em formato semelhante ao atual, nos anos de 1992, 1996 e 2000.

A publicação se estrutura em torno de quatro grandes eixos: O Brasil no Mundo; Território e Meio Ambiente; Sociedade e Economia; e Redes Geográficas. O primeiro trata da inserção do Brasil no cenário mundial e aborda questões como a desigualdade social, o acesso a informações, as redes geográficas e as fontes energéticas. Ressalta que as diversas formas de inclusão do Brasil no mundo afetam a própria geografia do país, pois grande parte das atividades aqui desenvolvidas relaciona-se à competição mundial. Baixe agora clicando aqui.

É PRECISO TER CUIDADO COM OS DADOS DO ATLAS  

O geógrafo sabe que a influencia da Geografia Teorética Quantitativa na Geografia ainda é bastante evidente, principalmente em representações espaciais oriundas de dados numéricos de amostragem. Uma vez que a principal  característica de método é a  matematização que se tornou proeminente nesse campo, fazendo com que se pensasse que a realidade geográfica pudesse somente ser explicada de forma descritivamente matemática, Assim, se aceita os dados  como tendências de uma possível verdade. Fica aqui a advertência de Wettstein (1992, p. 11): “A Geografia Quantitativa baseou-se na formulação matemática dos raciocínios e alcançou alto  grau de formalização, graças à utilização de métodos matemáticos”.

Por isso e importante ponderar quanto ao uso de mapas com dados, uma vez quem nem sempre representam a realidade das contradições do espaço geográfico. Outro fator importante e que os dados só mostram  tendência de amostragem coletas no senso realizado a cada dez anos. Um exemplo claro dessa situação é a posição do Brasil em relação ao PIB. Conforme dados divulgado pelo governo o em 2012, o PIB do Brasil, em valores correntes, foi de R$ 4,403 trilhões, tornado a sexta maior economia do mundo, Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, mas quando leva em consideração o IDH a posição do Brasil sai da 6º para 75º posição.

Vale salientar que é muito importânte que o pesquisador use utilize do principio da  Analogia ou Geografia Geral proposto por Karl Ritter (1779-1859) e Vidal de La Blache (1845-1918), que recomenda ao o geógrafo  observar a área e compará-la com outras, buscando semelhanças e diferenças existentes, condição que pode muito bem aplicado a outros parâmetros da geografia, como e caso dos índices IDH e o PIB já citados.

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um dado mais refinado e menos monetário, é por isso utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para analisar a qualidade de vida de uma determinada população. Os critérios utilizados para calcular o IDH são: 
Grau de escolaridade: média de anos de estudo da população adulta e expectativa de vida escolar, ou tempo que uma criança ficará matriculada; 
Renda: Renda Nacional Bruta (RNB) per capita, baseada na paridade de poder de compra dos habitantes, bastante diferente do PIB que se limita a elucidar a riqueza. Esse item tinha por base o PIB (Produto Interno Bruto) per capita, no entanto, a partir de 2010, ele foi substituído pela Renda Nacional Bruta (RNB) per capita, que avalia praticamente os mesmos aspectos que o PIB, no entanto, a RNB também considera os recursos financeiros oriundos do exterior;  
Nível de saúde: baseia-se na expectativa de vida da população, reflete as condições de saúde e dos serviços de saneamento ambiental. Assim,  considerando  o  Índice de Desenvolvimento Humano que varia de 0 a 1, quanto mais se aproxima de 1, maior o IDH de um local. Veja  então que de acordo com dados divulgados em novembro de 2012 pela ONU, o Brasil apresenta IDH de 0,699, valor considerado alto, e atualmente ocupa o 73° lugar no ranking mundial. Por isso é preciso ponderar sobre os dados e refletir criticamente os mapas. 


REFERÊNCIAS:
WETTSTEIN, G. Subdesenvolvimento e Geografia. São Paulo: Contexto, 1992.
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: Da crítica da Geografia uma Geografia Crítica. Ed. Hucitec, São Paulo, 1978.
Sites:
brasilescola.com/brasil/o-idh-no-brasil. Acesso em 28/11/2013.
IBGE. ibge.gov. Acesso em: 23/11/2010.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Memorial de Doutoramento em Geografia



O DOSSIÊ DE UMA DOCÊNCIA E PESQUISA AO ESTUDO DO PARQUE   NACIONAL DO CATIMBAU- BUIQUE -PE          


                                            (Memorial de doutorado)

A docência
Apesar de tardia sua formação em 1986 na Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde - AESA, sua vida se traz em uma rica história de coincidência de inclinação com a essa ciência, a qual aprendeu a se dedicar. Pode-se dizer que, poucas foram às vezes que trabalhou em atividades não ligadas à Geografia. No entanto, nunca imaginou que o Catimbau concomitantemente com Geografia, iria fazer parte de sua vida, e muito menos que isso o conduziria ao Magistério, Mestrado e Doutorado nesta ciência.
Nascido em Arcoverde, é filho de um cabeleleiro e de uma costureira. Cresceu no sertão, conhecedor do vale do Moxotó e dos açudes de sua bacia, do Catimbau, de Buique, das Serras das Varas, dentre outros. Compreender a Caatinga, os fenômenos das secas, dos solos poucas vezes embebidos de chuvas e ressecados pelo sol, sempre lhe aguçaram a curiosidade. Sua juventude vai ser vivida como que um romance de longas aventuras, nas águas do riacho do Mel que contorna o Vale do Catimbau, do Açude de Poço da Cruz, e das terras verdes do brejo do Catimbau.
Mas foi das terras cinzentas do agreste meridional que seu pai e sua mãe nasceram. O pai, um retirante que saiu do agreste afugentado pela seca de 1928, e que veio fixar morada em Arcoverde. Embora vivesse sob as condições mais adversas, era dotado de um grande senso de curiosidade. Gostava de ler e falar sobre fenômenos astronômicos e das forças telúricas. Foi do pai que recebeu o primeiro livro de Geografia e o primeiro telescópio.
Na década de 70, inicia seus estudou em dois colégios tradicionais de Arcoverde. No primeiro, Colégio Carlos Rios, não se adapta a rígida disciplina militar e tornou-se um aluno complacente. Mas em meio às tormentas da juventude conhece as aulas de Geografia da Professora Maria Ozita, que torna marcante seu interesse por essa ciência, e isso deixaria nuances em parte de sua vida. No segundo, o colégio Onze de Setembro fugia da escola para ir jogar bola, mas o zelo pelas aulas de Geografia continuou, o que se atribui ao excelente professor de Geografia o Professor Cristalino Wanderlei, mas o interesse geral por estudos veio graças à influência do educador Pastor Israel Dourado Guerra, o qual se pode afirmar como uma das figuras humana que mais influenciou em sua vida.
            A prática da docência ocorreu em 1987, quando veio a ensinar Geografia, coincidentemente no colégio que vivenciou parte de sua vida estudantil. Assim, o Colégio Onze de Setembro vai se tornar palco de suas primeiras aulas de Geografia e História, condição que perdurará até 1988. É nesse mesmo ano que é convidado para ensinar no Colégio Rio Branco, e nesse se revelaria a Arcoverde como professor de Geografia, História e Filosofia. Nessa condição permanece até 1990. Na mesma década inicia uma série de excursões ao antigo Vale do Catimbau e começa a coletar artigos e reportagens.
            Em 1989, como sina de muitos nordestinos, migra para o Rio de Janeiro e passa a residir nas Laranjeiras, bairro de classe média alta e reduto boêmio de artistas e intelectuais da sociedade carioca. É um período que o destino lhe reserva algo surpreendente com a Geografia, a convivência um amigo lhe põe de frente com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nesta oportunidade assiste palestras de Roberto Lobato Corrêa e, Iná Elias de Castro.
            Ainda no Rio de Janeiro, cursa Hotelaria e Turismo pelo SENAC, e participa da primeira CONFERÊNCIA MUNDIAL PARA O MEIO AMBIENTE, conhecida como ECO-92. Na ocasião participa como recepcionista em Rio das Pedras-RJ, um dos locais mais importantes da conferência. Tem a oportunidade de presenciar o início do maior evento eco-ambiental do planeta.
            Em 1995, devido à grave crise econômica vivenciada no país e, as dificuldades para conseguir emprego, regressa a Arcoverde. No mesmo ano é aprovado por concurso público ao cargo de professor de Geografia da Prefeitura Municipal de Garanhuns, obtendo o 2º lugar com nota 8,70, mas não assume. É nesse mesmo ano se licencia da carreira de professor e ingressa no serviço publico. Nomeado na ocasião pelo Governador Miguel Arraes, assume o cargo de Fiel-Gerente da CAGEPE na unidade armazenadora de Inajá– PE. Essa será a única etapa de sua vida sua unica ligação com a Geografia aparecerá de forma esporádica como professor substituto da Professora Eunilia Ferraz do Colégio Imaculada Conceição.
Em l998, retorna a Arcoverde, e reinicia a docência em um colégio das irmãs vicentinas, o então Colégio Imaculada Conceição de Arcoverde. Em 1999 é convidado para ensinar no Colégio Diocesano de Arcoverde, na época o melhor colégio do interior. No mesmo ano ingressa no curso de Pós-Graduação na Faculdade de Formação de Professores de Garanhuns, FFPG-UPE, onde cola grau em PROGRAMAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR DE GEOGRAFIA, obtendo notas que variam entre 7,0.e 9,55. Na oportunidade, conhece um marcante professor de Geografia, o Mestre Carlos Cruz Ubirajara, que lhe orienta sobre as bases do pensamento filosófico e metodológico da Geografia. Na ocasião defende um projeto de conclusão sobre a importância da preservação do Vale do Catimbau e sua importância geológica e arqueológica para cultura e turismo do povo de Buique –PE.
Nesse período a relação com o Parque Nacional do Catimbau se restringirá a contemplação de suas belezas e lutas pela preservação. Nessa condição começa ser convidado para palestra em colégios, câmaras de vereadores, organizar excursões, etc. Inicia um árduo trabalho de pesquisa para  recolher material sobre o Vale do Catimbau, mais tarde serviram para elaboração de suas pesquisas. Nesse ínterim, se surpreende com a inexistência de trabalhos acerca de impactos ambientais nessa área.
Nota claramente no meio cientifico uma lacuna do tema, assim, se inicia a busca em saber as razões ocultas que determinaram esta quase abstenção do tema entre os acadêmicos. Antes de conhecer as razões cientificas da origem física e cultual do Catimbau, transitava dos estudos científicos para mitos sem muitos cuidados ou critérios. De um lado havia a influência dos importantes escritos científicos do pesquisador e cientista Marcos de Albuquerque da UFPE dos anos 70-80, e do outro o que eu nunca quis se desprender, os mitos e a devoção a tênue cultura local.
O lado do mítico do Catimbau lhe fascinara, juntamente com sua leitura de Catimbau como algo misterioso, mesmo entendo a importância de suas histórias, seus ricos nichos arqueológicos, lugar dos últimos índios Kapinwás, que hoje encontra-se preservada como cultura indígena do nordeste do Brasil. Admirara os seus rituais, sua cultura, e observava atentamente as conversas sobre comunicações com espíritos de encantadores, com poltergeists, e as supostas observações e registros de OVNI, que retratam uma relação com uma “civilização” misteriosa e subterrânea, esses enigmas fascinavam sua mente em relação à remota e rica região.
Na verdade se sabe que o Vale do Catimbau é rico em pinturas rupestres da tradição nordeste e possui diversas curiosidades, como por exemplo, valia ouvir as lendas da Seita dos Imortais da fazenda Porto Seguro, residencia do líder já falecido dessa comunidade, o Sadadi Alexandre de Farias, conhecido como Meu Rei, e sua lendária crença, que afirmava que desde 2004 a Terra entraria em processo de purificação, e tudo que desagrada a Deus seria destruído. Por fim, os espíritos de luz reencarnariam em outro planeta.


A docência no Ensino Superior


Em 1999, se inicia no ensino superior, após submeter-se a concurso para professor na Faculdade de Formação de Professores de Belo Jardim-FABEJA, vindo a ser aprovado em 1º lugar, com nota 8,86. Toma posse no mesmo ano, assumindo as disciplinas de Geografia Física, Geologia, Geografia da População, Geomorfologia e Climatologia. Nesse período começa uma ampla divulgação das obras de Milton Santos, Aziz AB’Saber, João José Bigarella, Salgado-Laboriau, e de modo especial destaca os grandes nomes da Escola de Geografia de Pernambuco: Raquel de Caldas, Gilberto Osório, Manoel Correia de Andrade, Lucivânio Jatobá, entre outros. É nesse importante inicio de carreira profissional em que seu nome e a Geografia começam a se vinculado ao do Parque Nacional do Catimbau. Naquele mesm ano torna-se membro da AGB- Associação dos Geógrafos Brasileiros.
Em 2000, após cumprimento das exigências de formação constada no cronograma estabelecido para formação de pós-graduados em ensino superior da Geografia da UPE, retorna a FABEJA. Nesse mesmo ano, que surge uma oportunidade de nova seleção, desta vez para um curso preparatório para mestrado realizado pela ASSIESPE.
O curso seria ministrado no CEVASF – Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco-UFPE e a Associação das Instituições do Ensino superior de Pernambuco - ASSIESPE, evento que ocorreria no período de 20 de novembro de 2000 a janeiro de 2001, com quatro módulos e carga horária de 160h/a. Participam todos os professores de Geografia das faculdades do interior, totalizando cerca de 40 professores de Geografia. Nesse curso criou-se oportunidade de contato com os acadêmicos da escola da Geografia da UFPE, onde foi possível se conhecer grandes geógrafos de pernambucanos, a saber: Nilson Crócia, Cláudio Castilho, Raquel Caldas, Alcindo José de Sá, e Jan Bitoun. Essa convivência estabeleceu uma rota de colisão entre o pensamento místico e o cientifico.
O seu primeiro contado com a Biogeografia vem ocorrer no mesmo curso com a Professora Doutora Eugênia Pereira. Como se sabe essa é uma disciplina da Geografia para a qual convergem e contribuem diversas outras disciplinas das ciências naturais e humanas. Ao trabalhar o brejo, degradação ambiental, fragmentação, efeito de borda, propõe-se apreender a realidade, através da dualidade espacial, no seu aspecto físico e humano.
Foi nesse curso que veio ocorrer uma maturação acadêmica, de fato, em prol de um estudo com foco menos mítico e mais cientifico. Mas a mudança decisiva seria o contato com as aulas da Professora Dra. Eugênia Pereira, que com sua influência discreta, mas no fundo decisiva, essa mestra insuperável, possuidora de uma penetração psicológica que lhe daria um domínio tranqüilo sobre o meu comportamento inquieto de místico pesquisador. Pedagoga de mão cheia, profunda conhecedora da alma, não pretendeu dominar o orientando, mas quebrando o seu ímpeto místico e fantasioso, acabou por captar seus interesses e, desviou sua inquietação para objetivos mais nobres e científicos.
Assim, em um encontro inusitado de uma apresentação de trabalho de conclusão da disciplina Biogeografia em Belém de São Francisco ocorre um fato inusitado. A professora direciona uma pesquisa que levaria fazer uma exposição em mapa sobre a origem dos brejos pernambucanos. Nesse ínterim se depara com temas como: a Teoria de Refúgios e Redutos de Aziz Ab’Saber, fragmentação de sistemas naturais, recuo de matas, e fenômenos sobre a distribuição de áreas úmidas sobre o sertão, temas que o fascinou, concretizando a partir daí uma grande relação com o objeto de estudo (Brejo do Catimbau), e com a doutora Eugênia Pereira. Assim, favorecido pela curiosa apresentação da doutora que motiva-o e o orienta-o a seguir com a idéia, inicia-se assim sua busca pelo mestrado na UFPE.
Pode-se considerar também, como outro elemento desencadeador das pesquisas, o fator geográfico. Residir próximo ao objeto de estudo, Buique, foi uma das condições fundamentais para compor um cenário que possibilitou conhecer mais de perto a realidade do semi-árido, sobretudo, os municípios integrantes da Microrregião do Sertão do Moxotó: Ibimirim, Tupanatinga, Arcoverde, Cruzeiro do Nordeste, entre outros, onde se situa parte significativa da Bacia do Jatobá, e onde se insere o Vale do Catimbau.
Em 2001, visando preparo para o processo seletivo de mestrado da UFPE, inicia sua participação em diversos congressos e simpósios. Destaca-se entre eles, a participação no IX Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, promovido pela Universidade Federal de Pernambuco no mês de novembro, onde faz curso sobre meio ambiente urbano com o Dr. Jan Bitoun e o Dr.Leonardo José Cordeiro dos Santos. Outra participação significativa que deu importantes subsídios para aprovação do mestrado, veio do conhecimento obtidos no XIII Encontro Nacional de Geógrafos na UFPB, ocasião marcada pela presença e realização de diversos mini-cursos.

O Mestrado 

Em 2002 vários professores viajam a Recife para participar do processo seletivo para o mestrado da UFPE em Geografia, e nesse ínterim consegue sua aprovação. Na época faz opção pelo Mestrado em Gestão e Políticas Ambientais, atual PRODEMA e o projeto selecionado denominava-se: IMPACTOS AMBIENTAIS NO PARQUE NACIONAL DO CATIMBAU.Este projeto torna-se um interesse crescente, e a partir daí se iniciam os primeiros passos visando compreender o objeto de estudo, as teorias: da Pediplanação de João José de Bigarella, e a do Refúgio Ecológico de Aiz Ab Saber, que forneceram as bases iniciais necessárias e aguçavam ainda mais a curiosidade acerca das formas de analisar o espaço presente, levando-se em conta as heranças paleoambientais. Embasado por estas teorias lançava-se mão de metodologias integradas para a compreensão das variáveis de estudo.
            As metodologias, embora diretamente voltadas para o estudo de impactos ambientais, permitiam conhecer os impactos causados por estradas e conseqüente efeito de borda, fragmentação do parque e suas implicações sobre a vegetação de Caatinga, idéias que mais tarde subsidiaram o projeto de doutorado. Seguia-se, então, o levantamento dos dados do meio físico, confecção de mapas, e localização dos pontos mais impactados. Assim, acompanhados pelo orientadora Eugênia Pereira. Finalmente, definiu seu ponto focal de estudo de mestrado, a definição da zona de amortecimento (ZA) do Parque Nacional do Catimbau (PNC), inexistente nos documentos de sua criação e, necessário à proteção de uma Unidade de Conservação. Nessa ZA definida, identificou os diversos impactos gerados pelos habitantes da região, além de apontar incongruências nos limites definidos e potencial turístico do PNC.
Em 2003, após a aprovação no mestrado para a turma de 2004, começa a ser convidado para ministrar palestra em congresso. Trata-se de um período muito importante, uma vez que permitiu expor apresentar suas primeiras idéias. Participou no Educação I e II CONGRESSO INTERESTADUAL DA EDUCAÇÃO -CESA, expondo sobre os impactos ambientais na Bacia hidrográfica do Moxotó e sua relação com o Vale do Catimbau.
No mesmo ano, assume o cargo de adjunto de DEPTO DE GEOGRAFIA–FABEJA em BELO JARDIM e participa do I SIMPÓSIO DE GEOGRAFIA em mesa redonda com o Geógrafo da USP professor  Dr.WILLIAM VESENTINI, que posteriormente conhece o projeto sobre o Vale do Catimbau.
Em 2006 defende seu mestrado, com dissertação intitulada POTENCIALIDADES E IMPACTOS AMBIENTAIS NO PARQUE NACIONAL DO VALE DO CATIMBAU sob orientação da Dr. Eugênia Pereira da UFPE. Parte da dissertação foi publicada como capítulo do livro Turismo e Práticas Socioespaciais: Múltiplas Abordagens e Interdisciplinaridades, com o título: Potencialidades Turísticas e Riscos Ambientais no Parque Nacional do Catimbau, organizado pelo Prof. Dr. Cláudio Castilho da UFPE e impresso pela Editora Universitária da mesma instituição.
Em 2007 volta a UFPE e participa do I Simpósio de Ciências da Terra. Na oportunidade faz um curso sobre rochas e minerais com o Doutor Gorki Mariano realizado no Departamento de Geologia.
No mesmo ano, atuando na FABEJA, torna-se Professor Adjunto do Departamento de Geografia, onde o governo do Estado de Pernambuco cria o Projeto Alvorada, cuja meta era capacitar, através da pós–graduação, todos os professores de Geografia da rede estadual. Esse projeto, com licitação vencida pela FABEJA, ficou sob coordenação do Mestre. Carlos Cruz Ubirajara da UPE. Este, na ocasião, recomenda que o comando o pólo de Petrolina, seja direcionado a minha pessoa, ocupando assim a responsabilidade de chefia e ensino das disciplinas de Fundamentos Teóricos Metodológico da Geografia. Nessa condição, leciona no pólo de Caruaru, Petrolina e Recife.
Em 2008 é nomeado coordenador do Curso de Geografia da FABEJA onde se dedica ao ensino, pesquisa, orientação e excursões didáticas, lecionando GEOLOGIA, GEOMORFOLOGIA, GEOGRAFIA DA POPULAÇÃO, CLIMATOLOGIA, HIDROGEOGRAFIA, e FUNDAMENTOS TEORICOS METODOLOGICOS DA GEOGRAFIA. No mesmo ano é convidado pelo Prof. MS. Carlos Ubirajara, para palestra sobre o Efeito Estrada no Parque Nacional do Catimbau na Universidade de Pernambuco na Unidade de Garanhuns.
Em 2009 participa do Concurso da Escola Agrotécnica Federal de Belo Jardim e obtém na primeira fase o 1º lugar com nota 9,33, onde leciona Geografia. Atualmente como professor em Belo Jardim, ministra palestra em cursinho preparatório para concursos. Participa da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em Pernambuco, onde prefere palestra no Instituto Federal de Pernambuco- IFPE. Ainda no mesmo ano é convidado pela AESA (onde se formou) para proferir palestra sobre a sobre a importância da Geografia no século XXI.
Os feitos em prol da educação repercutem em Belo Jardim, Petrolina, Caruaru e Recife; some-se a esse fato o conseqüente crescimento do curso de Geografia da FABEJA, as conquistas do Mestrado em Gestão e Políticas Ambientais (UFPE), da aprovação no doutorado (UFPE), as vitórias da licitação do Projeto Alvorada e, por fim, a importante classificação em primeiro lugar na Escola Agro-técnica Federal, tiveram grande repercussão no meio político e educacional do município de Belo Jardim. Essas conquistas passam ser conhecidas pela sociedade, e principalmente no âmbito político, especificamente na Câmara de Vereadores.
Em resposta o vereador Euno de Andrade da Silva Filho encaminha projeto de concessão do título de Cidadão Belo Jardinense pelos relevantes serviços prestados ao curso de Geografia da Faculdade de Belo Jardm- FABEJA. Em junho de 2008 a câmara acata a solicitação, que foi aprovada por unanimidade.No mesmo ano tem importantes participações na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, onde apresenta parte de suas pesquisas sobre a fragmentação e efeito de borda no Parque Nacional do Catimbau.

O doutorado 

Quanto ao doutorado, o ingresso se deu ano 2006, quando de sua aprovação no curso de DOUTORADO EM GEOGRAFIA da Universidade Federal de Pernambuco, ocasião obteve a sexta posição entre os candidatos, com o projeto na área da Biogeografia, sob orientação da Dra. Eugênia Pereira e co-orientado pelo Dr. Fernando de Oliveira Mota Filho. O tema se situa especificamente com eixo temático na Ecologia da Paisagem, centrado no sub-tópico Estrutura de Paisagem. Um tema principal derivou das idéias de Forman e Godron, autores das obras clássicas “Patches and Structural Components for a Landascape Ecology” (Forman e Godron, 1981) e “Landscape Ecology” (Forman e Godron, 1986). Essas obras dão suportes conceituais teóricos que alimentam a querela sobre o funcionamento da paisagem e tema de estudo.
Em geral esse tipo de estudo requer uma pesquisa bibliográfica ampla para situar o estágio atual do discurso. É um tema de análise do mosaico da paisagem, e segue a tradição conceitual conforme disponibiliza a literatura, que tradicionalmente tem a seguinte estrutura conceitual: a) elementos de um ecossistema que são: a estrutura, a função e a alteração. A função diz respeito à interação entre os elementos espaciais, isto é, o fluxo de energia, materiais e espécies entre os componentes ecossistêmicos. A alteração que reflete as mudanças na estrutura e na função do mosaico ecológico (Turner e Gardner, 1991). Essa pesquisa teve seu foco situado nos componentes da estrutura e se refere às relações espaciais entre os corredores e a matriz.
            O um dos pontos de partida do projeto, advindo da fase de leitura bibliográfica, consiste em dar nova roupagem, visando facilitar a interpretação e entendimento da literatura. Essa condição adveio das dúbias interpretações presentes nos aspectos conceituais, o que não veio a invalidar os mesmos. Assim, este documento é apresentado no seu âmbito conceitual. Os corredores segundo Matteucci (1998); Burel e Baudry (2002) consistem na rede de ligação que conectam as manchas com a matriz, representados por um sistema viário (estradas e trilhas), rede de drenagem (córregos e canais), compondo um conjunto espacial de manchas e de redes constituindo um padrão paisagístico, que possibilita a conectividade entre os organismos existentes.
Quanto a esses aspectos conceituais, essa pesquisa mostra parte da forma como os conceitos “corredor” vêm sendo aplicados. Discutiu a generalização do termo “corredor” quando aplicada aos objetos antrópicos, como é caso de estradas, e a elementos da natureza, a exemplo de rios, córregos, etc.. Percebeu-se que sua interpretação poderia escamotear a elucidação dos impactos ambientais que uma estrada pode causar. Daí resulta a crítica ao termo, e buscando-se nos postulados de Diamond (1975), a quem se atribui estudo do efeito borda e fragmentação em unidades de proteção, quando asseverou: “as reservas não deviam ser subdivididas em partes, principalmente por estradas, pois estas podem se constituir em barreiras”.
Mais a idéia central que serviu de eixo advém da leitura do importante artigo de Santos & Tabarelli(2002) denominado Distance From Roads and City as Predictor of Habitats Loss and Fragmentation in The Caatinga of Brazil. Nesse artigo os autores elucidam que a inserção de “corredores” (as estradas e as rodovias) teria induzido a fragmentação da Caatinga. Essa idéia foi transposta para o estudo do Parque Nacional do Catimbau. Assim, com base em tais postulados, se percebeu que havia possibilidades de que tal fato estivesse ocorrendo nos parques nacionais do Brasil.
Procedeu-se então um longo levantamento das reais condições do parque em relação a inserção das estradas no seu interior, em sua zona de amortecimento, ou como limite do seu perímetro, tendo como elemento balizador o Parque Nacional do Catimbau. Embora a Sociedade Nordestina de Ecologia quando da elaboração do seu projeto de criação tenha justificado o uso “corredores” (estradas, rodovias e pontes, de rios, entre outros), sob a alegação de “facilitar a identificação dos limites no campo (S.N.E., 2002), essa posição confrontou-se com as posições teóricas estabelecidas.
No caso especifico do PNC a inserção de “corredores” (estradas) evidenciou sua relação direta com os impactos ambientais identificados por RODRIGUES (2006). Nos últimos anos, os impactos causados à fauna por atropelamentos nas estradas e rodovias passou a receber a atenção de pesquisadores em vários países, principalmente nos E.U.A. No Brasil, a preocupação foi posterior e  recente e, quase sempre associada às áreas de interesse de preservação. São diversas as citações considerando os aspectos negativos das estradas, como as encontradas em Conde & Bergallo (2001), Dias (2004), dentre outros. Por fim, o projeto trabalhou com a hipótese de que a inserção de estradas ou rodovias seja no interior das Unidades de Conservação, ou como seus limites constituem uma prática inadequada para sua preservação.
Entretanto, a confirmação dessa idéia dependeu de muito trabalho de campo. Com esse objetivo, os estudos de sensoriamento remoto foram fundamentais, principalmente o uso da banda 3 do NDVI, usada para detectar a presença de excesso hídrico em borda das estradas, para que se pudesse considerar o fato como efeito estrada. As bases do questionamento conceitual denominando estradas e linhas de transmissão, oleodutos como barreiras (classificação dinâmica) e não como corredores (classificação técnica tradicional) foram embasados em Sobrinho (1975), Diamond (1975), Dias (2002), que apontam os efeitos negativos provocados por uma estrada, considerando-a como barreiras.
De posse dessa idéia, maturou-se a necessidade de expressar idéia representar a condição de inserção de estrada e suas conseqüências ambientais negativas. Essa lacuna era bem evidente na literatura. Com essa clareza, surge então a idéia da construção conceitual do efeito estrada, e elaboração de um modelo que retrate em que condição vem ocorrer, e como acontece na prática. Dessa forma, se consolidou uma tese de doutorado para posterior defesa.
Em 2010, participa do VI SEMINÁRIO LATINO AMERICANO  e II SEMINÁRIO IBERO-AMERICANO de Geografia Fisica –Sustentabilidade da “GAIA”; Ambiente, Ordenamento e Desenvolvimento, na Universidade de Coimbra –Portugal.   
Por fim, esse memorial é um retrato de um professor, onde cada etapa de sua vida tem sido entrelaçada de dedicação à Ciência Geográfica e à satisfação da carreira profissional, mas que ainda teve um orgulho que foi o de  pertencer a essa grande escola da Geografia pernambucana que é a UFPE.

           

 Recife, 12/12/2010.
Natalicio de Melo Rodrigues

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Manifesto da Geografia - Milton Santos




O Manifesto
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O PAPEL ATIVO DA GEOGRAFIA
UM MANIFESTO
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Milton Santos*

The active role of Geography: A Manifesto
Abstract
The active role of Geography in Academia, in Planning and as a tool for building up citizenship are discussed in this Manifesto. Considering space as the central scientific category of the discipline, the author proposes that one should view it as 'used territory ', a conception which encompasses both the active role of space as actor and its role as the object of action. It is only through the adoption ' such a perspective that geographers will effectively address the significant questions which face society today.

Resumo
O papel ativo da Geografia na Academia, em Planejamento e como um instrumento de construção de cidadania são discutidos neste Manifesto. Considerando o espaço como a categoria científico central da disciplina, o autor propõe que se deve vê-lo como "território usado", um conceito que engloba tanto o papel ativo do espaço como ator e seu papel como o objeto da ação. É somente através da adoção "como uma perspectiva que geógrafos efetivamente abordar as questões importantes que enfrentam a sociedade de hoje.




1
O papel atribuído à geografia e a possibilidade de uma intervenção válida dos geógrafos no processo de transformação da sociedade são interdependentes e decorrem da maneira como conceituamos a disciplina e seu objeto.

Se tal conceituação não é abrangente de todas as formas de relação da sociedade com seu meio, as intervenções serão apenas parciais ou funcionais, e sua eficácia será limitada no tempo.

É verdade que, na linguagem comum e no entendimento de outros especialistas, assim como de políticos e administradores, a geografia é frequentemente considerada como a disciplina que se preocupa com localizações. Aliás, um bom número de geógrafos trabalha com essa visão.

A geografia considerada como disciplina das localizações, posição aceita durante largo tempo, mostra-se todavia limitante do rol de relações que se dão entre o homem e o meio e, por essa razão, revela-se insuficiente.

Mas esse não é o único enfoque simplificador e deformador.
2
Foi por isso que propusemos considerar o espaço geográfico não como sinônimo de território, mas como território usado: e este é tanto o resultado do processo histórico quanto a base material e social das novas ações humanas. Tal ponto de vista permite uma consideração abrangente da totalidade das causas e dos efeitos do processo sócio territorial.

Essa discussão deve estar centrada sobre o objeto da disciplina - o espaço geográfico, o território usado - se nosso intuito for construir, a um só tempo uma teoria social e propostas de intervenção que sejam totalizadoras. Entre os geógrafos, incluindo aqueles convidados para trabalhar com toda sorte de questões voltadas ao planeamento, o problema do espaço geográfico como ente dinamizador da sociedade é raramente levado em consideração. Ora, se as bases do edifício epistemológico são frouxas, as práticas políticas almejadas serão, no mínimo, enviesadas.

A compreensão do espaço geográfico como sinônimo de espaço banal obriga-nos a levar em conta todos os elementos e a perceber a inter-relação entre os fenômenos. Uma perspectiva do território usado conduz à idéia de espaço banal, o espaço de todos,  todo o espaço. Trata-se do espaço de todos os homens, não importa suas diferenças; o espaço de todas as instituições, não importa a sua força; o espaço de todas as empresas, não importa o seu poder. Esse é o espaço de todas as dimensões do acontecer, de todas as determinações da totalidade social. É uma visão que incorpora o movimento do todo, permitindo enfrentar corretamente a tarefa de análise. 

Com as noções de território usado e de espaço banal, saltam aos olhos os temas que o real nos impõe como objeto de pesquisa e de intervenção. Mas tal constatação não é suficiente. É indispensável afinar os conceitos que tornem operacionais o nosso enfoque. A riqueza da geografia como província do saber reside justamente no fato de que podemos pensar, a um só tempo os objetos (a materialidade) e as ações (a sociedade) e os mútuos condicionamentos entretecidos com o movimento da história. As demais ciências humanas não dominam esse rico veio epistemológico.

território usado constitui-se como um todo complexo onde se tece uma trama de relações complementares e conflitantes. Daí o vigor do conceito, convidando a pensar processualmente as relações estabelecidas entre o lugar, a formação sócia espacial e o mundo.

3
Cada vez que, em lugar de considerar o movimento comum da sociedade como um todo e do território como um todo, partimos de um dos seus aspectos, acabamos encontrando lineamentos que apenas são aplicáveis a uma determinada área de atuação - uma instância da vida social -, sem, todavia autorizar uma intervenção realmente eficaz para o conjunto da sociedade. Em outras palavras, tais soluções são ocasionais, mas não duradouros remédios parciais, mas não globais.

Qualquer proposta de análise e interpretação que pretenda inspirar ou guiar uma intervenção endereçada ao conjunto da sociedade não pode prescindir, então, de uma visão desse todo. Incapazes de gerar mudanças que englobem a totalidade do território e da sociedade, as intervenções parciais atendem a interesses particulares ou apresentam resultados efêmeros e inoperantes.

Uma posição parcial da geografia frente ao seu objeto encontra abrigo nas fragmentações e dicotomias presentes em seu próprio seio, o que a torna teoricamente frágil. Conhecimentos operatórios e parcelares podem tornar-se entraves ao desenvolvimento da disciplina e de seu papel como ramo do conhecimento, particularmente quando parecem tomar o lugar da geografia ou justificar autonomamente sua existência.

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Por vezes é a própria formação do geógrafo que se torna um convite à fragmentação do conhecimento e do trabalho.

Quando se toma apenas urna parte do corpus da disciplina e assim mesmo o trabalho se torna exitoso, há nas pessoas um reforço à crença numa disciplina parcializada. É comum a opinião de que propor intervenções é possível àqueles enfoques fundados em visões parciais, ainda que essas intervenções amiúde sejam funcionais à política das grandes empresas. Será esse o êxito que buscamos?

No ensino da geografia é menos frequente do que seria desejável a consideração da totalidade do conhecimento geográfico. A geografia é quase sempre apresentada ao estudante, desde o primeiro momento, de forma segmentada dificultando a apreensão de uma abordagem essencialmente geográfica e comprometendo a formação do profissional e o futuro da própria disciplina. Como resultado, muitas vezes o geógrafo especializa-se em um ramo operacional voltado ao restrito mercado de trabalho.

Acreditamos poder escapar à "parcialização" da disciplina (e, destarte, das intervenções a partir dela), com a busca firme e continuada de uma ontologia do espaço geográfico. Esta busca pode ser entendida como a construção de um conjunto de proposições epistemológicas que, formando um sistema lógico coerente, e sendo fundada nos avanços metodológicos já conseguidos pela disciplina no século XX, aprimoraria o que se pode chamar de "núcleo duro" da geografia, desembocando, necessariamente numa visão geográfica totalizadora.

Conseguiríamos, desse modo, um rechaço à "indolência epistemológica" (situação que, aliás, não é só brasileira) na produção do conhecimento geográfico.
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O espaço é frequentemente considerado como espaço político, espaço econômico, espaço antropológico, espaço turístico. E esse é um grande problema para a disciplina.

Fragmentada, a geografia não oferece uma explicação do mundo e, portanto passa a precisar cada vez mais, de adjetivos que expliquem a sua finalidade. Ela perde substância e corre sérios riscos de não ser mais necessária nos currículos escolares. Tal fragmentação é decorrente, de um lado, da crescente impossibilidade, socialmente gestada, de percebermos que todos os elementos agem conjuntamente (e separações podem ser feitas apenas para fins analíticos). Soma-se a isto a consagração da fragmentação no ensino em todos os planos (nas aulas, nos livros, nas grades curriculares). A situação é agravada, ainda, quando no ensino superior - público e privado - adota-se uma especialização cujo fim é atender a uma certa política e ao mercado.

6
Tanto o mercado como a política às vezes inspiram soluções desse tipo. Não será o caso de certas propostas fundadas, por exemplo, nas geografias do turismo, do meio ambiente, da cultura, dos SIG's, ou de sugestões ditas de planejamento regional, mas que, na verdade, beneficiam uma ou poucas atividades em um dado momento?

Não é demais assimilar estas proposições a uma fragmentação da disciplina geográfica em outras tantas geografias, que desejam, na prática, imporem-se como autônomas, quando seu papel auxiliar apenas as qualifica como ramos operacionais de uma geografia mais complexa e unitária. Esta parece mais possível de alcançar através de uma perspectiva do território usado, uma vez que estamos levando em conta todos os atores.

Buscando atender às exigências na formação de profissionais para o mercado de trabalho, cursos de graduação têm privilegiado a especialização do saber em detrimento do conhecimento abrangente, afastando o profissional do cidadão. Por outro lado, políticas restritivas de financiamento provocam um distanciamento entre as várias áreas do saber, privilegiando-se àquelas que possibilitam investigações aplicadas, consideradas da maior relevância econômica ou política.

Nesse contexto muitos geógrafos procuraram adaptar-se às novas exigências por meio de saídas particularistas no ensino e na pesquisa, enfatizando aspectos da realidade social como se fossem a totalidade do fenômeno geográfico. Em nome de uma modernização utilitária e produtivista, certos cursos de geografia correm o risco de jogar fora princípios que deveriam balizar e singularizar esta área do saber.

7
Na evolução do pensamento geográfico, a vontade de totalização e a formulação dos respectivos enfoques têm sido presentes, ainda que contrariadas sempre por uma tendência à segmentação.

Vejamos um exemplo. Na época de Vidal de la Blache, a possibilidade de totalização às vezes concretizada com a ajuda da política de um Estado necessitado de um conhecimento geográfico, não sofria as investidas do mercado tal como as conhecemos hoje. Desse modo opunha-se um dique à fragmentação do saber geográfico e das suas propostas de ação.

Enfoques totalizadores tendem a buscar uma correspondência à unidade do mundo real. Todavia, no caso particular da geografia, essa ideia de unidade da Terra é contraposta por aqueles que se apoiam em realidades parciais para fundamentar argumentações também parciais ou redutoras. Assim, a geografia foi se firmando ao longo de sua história à base desse confronto entre duas vocações bem distintas. No plano do conhecimento ou das propostas de ação, a verdade teria sido tomada por diversas formas de engano.

E hoje? Quando a própria globalização é vista como um resultado da vontade de integrar mercados segundo um discurso único, ela não permite o reencontro de enfoques mais abrangentes.

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O problema central é como utilizar os conhecimentos sistematizados por uma disciplina no delineamento de soluções práticas e caminhos frente aos problemas concretos da sociedade. Dependendo das filiações teórico-ideológicas dos autores, isso parece ter sido possível aos especialistas da ciência política, da economia etc., cuja tarefa ultrapassa, sem maiores dificuldades, o limite da simples interpretação dos fenômenos para sugerir mudanças, isto é, para se erigir como uma política.

Quando o esquema interpretativo da sociedade próprio à nossa província do saber dá conta da realidade concreta em sua totalidade ele pode ser o fundamento da construção de um discurso novo para a ação política dos atores sociais responsáveis por sua prática, tais como partidos políticos, movimentos sociais, instituições etc. Um discurso socialmente eficaz pode ser o conteúdo, a base de intervenções "sistêmicas" na sociedade, em diferentes níveis do exercício da política, entre os quais, o mais abrangente seria a contribuição para a elaboração de um projeto nacional, comprometido com a transformação da sociedade em benefício da maioria da população do país.

A ideia de intervenção supõe um interesse político, entendido como interpretação histórica mais ampla, que implica um ideal de futuro como espaço de resolução de problemas supostamente arraigados nas sociedades.

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Não se trata de impor uma definição única. O conteúdo de uma geografia compreensiva pode certamente responder a uma entre várias linhas teóricas, segundo a escolha do autor. Mas, a partir daí, é indispensável dispor de um conjunto coerente de proposições, onde todos os elementos em jogo sejam considerados em sua integração e em seu dinamismo.

A geografia deve estar atenta para analisar a realidade social total a partir de sua dinâmica territorial, sendo esta proposta um ponto de partida para a disciplina, possível a partir da um sistema de conceitos que permita compreender indissociavelmente objetos e ações.

território usado, visto como uma totalidade, é um campo privilegiado para a análise na medida em que, de um lado, nos revela a estrutura global da sociedade e, de outro lado, a própria complexidade do seu uso.

Para os atores hegemônicos o território usado é um recurso, garantia da realização de seus interesses particulares. Desse modo, o rebatimento de suas ações conduz a uma constante adaptação de seu uso, com adição de uma mantenalidade funcional ao exercício das atividades exógenas ao lugar, aprofundando a divisão social e territorial do trabalho, mediante a seletividade dos investimentos econômicos que gera um uso corporativo do território. Por outro lado, as situações resultantes nos possibilitam a cada momento, entender que se faz mister considerar o comportamento de todos os homens, instituições, capitais e firmas.

Os distintos atores não possuem o mesmo poder de comando levando a uma multiplicidade de ações fruto do convívio dos atores hegemônicos com os hegemonizados. Dessa combinação temos o arranjo singular dos lugares.

Os atores hegemonizados têm o território como um abrigo, buscando constantemente se adaptar ao meio geográfico local, ao mesmo tempo em que recriam estratégias que garantam sua sobrevivência nos lugares. É neste jogo dialético que podemos recuperar a totalidade.

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Somente assim responderemos à questão crucial de saber como e porque se dão as relações entre a sociedade como ator e o território como agido e, ao contrário, entre o território como ator e a sociedade como objeto da ação. É essa, a nosso ver, a maneira de encontrar um enfoque totalizador, que autorize uma intervenção interessando à maior parte da população. 




1. Apresentado pelo grupo Estudos Territorais Brasileiros, do Laboplan (Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental) do Departamento de Geografia - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) no XI Encontro Nacional de Geógrafos. Florianópolis, Brasil, Julho de 2000.
2.* Colaboradores: Adriana Bernardes, Adriano Zerbini, Cilene Gomes, Edison Bicudo, Eliza Almeida, Fabio Betioli Contel, Flávia Grimm, Gustavo Nobre, Lídia Antongiovanni, Maíra Bueno Pinheiro, Marcos Xavier, María Laura Silveira, Marina Montenegro, Marisa Ferreira da Rocha, Milton Santos, Mónica Arroyo, Paula Borin, Soraia Ramos, Vanir de Lima Belo.
Revista Território, Rio de Janeiro, ano V, nº 9, pp. 103-109, jul. dez., 2000
Estudos Territoriais Brasileiros – Laboplan  Departamento de Geografia  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Uni versidade de São Paulo



sábado, 19 de outubro de 2013

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO 
– UMA ANALOGIA DE JOSÉ SARAMAGO E JEAN BAUDRILLARD


É possível relacionar a filosofia platônica, sobretudo o mito da caverna, com nossa realidade atual? É é possível sim fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, esse exercício mental além de ajuda na formulação do senso crítico é também um ótimo exercício de interpretação de texto. A relevância e atualidade do mito não surpreende: muitas informações denunciam a alienação humana, criam realidades paralelas e alheias.

O mito ou “Alegoria” da caverna é uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro VI de “A República”onde Platão (428-427 a.C.) discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal. Hoje o mito pode ser aplicado para entender a sociedade em que vivemos, onde a mídia televisiva e escrita exerce um grande poder nas opiniões de uma determinada parte da sociedade.

O mito da Caverna Constituí uma das citações clássicas da História da filosofia, condição de vida de prisioneiros que se encontram acorrentados e condicionados a pouca mobilidade. A entrada da caverna permite que a luz de um fogueira situada de forma estratégica projete reflexos dos movimentos de pessoas e seus objetos sejam projetados nas paredes internas. Nesse condição os prisoneiros jamais viram as pessoas e objetos como de fato são, assim, imaginam que as sobras sejam de fato a realidade. Para Platão (427-347 a.C), a caverna é o mundo em que vivemos, e as sombras, o modo como enxergamos tudo.

Na vivencia da caverna e com o passar do tempo, os prisioneiros dão nomes a essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem, inclusive, fazem torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as corretas denominações sobre saber identificar os objetos projetados. Imagine-se que em um determinado momento um destes prisioneiros é forçado a sair das amarras e vasculhar o exterior da caverna. Ele veria que o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Perceberia que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando afastado da verdadeira realidade.

Mas imaginemos ainda que esse mesmo prisioneiro fosse arrastado para fora da caverna. Ao sair, a luz do sol ofuscaria sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade, poderia voltar a enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna. Não demoraria a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas, sendo, portanto, mais reais. Significa dizer que ele poderia contemplar a verdadeira realidade, os seres como são em si mesmos. Não teria dificuldades em perceber que o Sol é a fonte da luz que o faz ver o real, bem como é desta fonte que provém toda existência (os ciclos de nascimento, do tempo, o calor que aquece etc.).

Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembrar-se-ia de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam. Imediatamente, sentiria pena deles, da escuridão em que estavam envoltos e desceria à caverna para lhes contar o novo mundo que descobriu. No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, vão debochar do seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e que se não parasse com suas maluquices acabariam por matá-lo.

Fora da caverna e  deslumbrado com a verdadeira forma das coisas é um metáfora feita por  Platão com os filósofos, que ascendem por meio do conhecimento. Ele defendia a tese de que o mundo das ideias só poderia ser acessado pelos filósofos. Logo, era essa a classe mais indicada para governar a pólis. Esse pensamento originou a teoria política de Platão, na qual ele cria a cidade ideal. Nela, existiriam apenas três categorias de cidadãos, cada um desempenhando a tarefa para a qual estava melhor preparado. Aqueles que tinham a "alma com apetite" seriam trabalhadores; os corajosos, os guardiões da pólis; e os dotados de sabedoria e razão, os governantes-filósofos. A tarefa do rei filósofo seria justamente a de regressar à caverna e relatar o mundo das ideias para os demais - isto é, contar a verdade para a sociedade.





Figura 1: Observa-se na imagem acima a direita os prisoneiros presos e sentados no chão, esses vendo as imagens sendo projetadas na paredes como se fosse a realidade. A esquerda, ver-se um grupos de pessoas em pé por trás do muro manipulando objetos que serão usados como projeção de imagem real; ver-se ainda uma pira incandescente que ajuda a projetar a imagem. Fonte: Instituto Imagik.

Platão explica que a alma antes de ficar aprisionada ao corpo, habitava o mundo luminoso das ideias, guardando apenas vagas lembranças, desta existência anterior. Porém essas reminiscências fazem com que a alma esteja sempre voltada para um mundo ideal. Mas as sensações do corpo tendem a desviá-la desse caminho, que é o da sabedoria da vida. Por isso apenas parte racional (mental) do homem é nobre e boa. A parte das sensações físicas deve ser subordinada a ela e não ao contrário.

Platão se utilizar da alegoria da representação da caverna para dizer que o mundo que percebemos com nossos sentidos é um mundo ilusório e confuso mundo das sombras.(Hoje seria o mundo que a TV que passar as pessoas) Porém há um reino mais elevado, espiritual, eterno, onde está o que existe de verdade, ou seja, as ideias, que só a razão pode conhecer. Esse é o mundo que se encontra fora da caverna e que só os filósofos chegam a perceber e a mais elevada delas é a ideia do Bem, causa e finalidade do universo.


Figura 2:Observa-se na figura cuja representação lembra uma condição nova vivida pelos prisoneiros relatados no Mito da Caverna de Platão, trata-se uma analogia que leva a pensar sobre a real participação dos telespectadores da TV moderna, nessa condição Saramago no leva a pensar a nova forma de manobra ideológica para controlar o comportamento dos telespectadores passivos. Fonte:Google/imagens.

O Mito da Caverna de Platão continua sendo um convite permanente à reflexão e tem ganhado diversas versões em livros, como foi o caso do escritor portugueses e José Saramago (1922-2010), autor que escreveu o livro a Caverna preservando originalmente o titulo de Platão. Jean Baudrillard (1929-2007) é outro escritor francês que retrata bem as condições da caverna no livro Simulacros e Simulação (Simulacres et Simulation). Quanto aos filmes destacam-se o Show de Truman filme norte-americano de comédia dramática de 1998, e o a mega produção cinematográfica de Hollywood Matrix produção cinematográfica estadunidense e australiana de 1999. No Brasil o mito da Caverna inspirou a publicação de tiras de quadrinho de Mauricio de Souza.

O Livro de José Saramago



Ultimamente coube José de Sousa Saramago,escritor, jornalista, dramaturgo, romancista e poeta português, galardoado com o Nobel de Literatura de 1998, faz uma importante analogia entre o mito da caverna de Platão e o tempos atuais da globalização e o papel do poder que a mídia exerce sobre as pessoas. Nessa analogia da Caverna, essa visão alegórica recai sobre o sofrimento do homem que tem sua força de trabalho inutilizada em um universo capitalista, em que o mercado dita as regras de aceitação e inserção do humano no mundo dos objetos. 


Quanto ao livro a caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa. É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive - agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua. Enquanto isso, embaixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador. Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.

Baixe e leia o livro a Caverna: 

Há também do mesmo autor um excelente vídeo publicado no Youtube comentando como o autor elucida a ideia de retratar uma versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico e seu poder de dominação.



Ultimamente tendo em vista o aumento da ideologia do consumo de objetos e materializados nos grandes centros de compras ou shopping, tem surgido outras formas de interpretação do Mito da Caverna representado por outro meios de comunicação,como são os casos do cinema, das charges e de revistas em quadrinho. No cinema o tema veio através do estúdios de Hollywood no filme Matrix, nos quadrinho na forma de revista pelo autor e cartunista Mauricio de Souza.

Baudrilard

Jean Baudrillard (1929) começou sua carreira como professor de sociologia na Universidade de Nanterre, em Paris. Em 1977, ganhou projeção com a publicação do livro Esquecer Foucault e, mais tarde, ganhou fama e popularidade ao decretar “o fim dos tempos”, em suas teorias sobre o poder da mídia na sociedade pós-moderna.

Segundo a obra Simulacro e Simulações com base filosofica em Platão no livro a Caverna, a realidade deixou de existir, e passamos a viver a representação da realidade, difundida, na sociedade pós-moderna, pela mídia.



Para Baudrillard, autor do livro Simulacros e Simulação (em francês: Simulacres et Simulation) é um tratado filosófico que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade. Simulacros são cópias que representam elementos que nunca existiram ou que não possuem mais o seu equivalente na realidade. Simulação é a imitação de uma operação ou processo existente no mundo real. a cultura da atualidade é fruto de uma realidade construída – a hiper-realidade. Isto é, uma realidade construída a partir dos valores simbólicos impostos pelo sistema hegemônico. Dessa forma, cria-se uma realidade dentro da realidade, em que os valores sígnicos substituem paulatinamente os valores concretos das mercadorias (lembrando que na sociedade de consumo tudo é mercadoria, sobretudo, nós).

Radicalmente irônico, mas com fundamentos, Baudrillard defende a teoria de que vivemos em uma era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Desse fenômeno surgem os “simulacros”, simulações malfeitas do real que, contraditoriamente, são mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido.

O livro direcionou e ainda direcionará estudiosos sobre a era em que vivemos, pós-internet. Baudrillard utilizou uma linguagem irônica que o tornou popular a ponto de inspirar filmes americanos, como os recentes Truman Show (1998) e a série Matrix (1999). O autor, inclusive, deu entrevistas a meios de comunicação brasileiros recentemente, após o lançamento de Matrix (o filósofo, inclusive, assumiu não ter gostado).


 A Caverna Hoje

Este modo de contar as coisas tem o seu significado: os prisioneiros somos nós que, segundo nossas tradições diferentes, hábitos diferentes, culturas diferentes, estamos acostumados com as noções sem que delas reflitamos para fazer juízos corretos, mas apenas acreditamos e usamos como nos foi transmitido. 

A caverna é o mundo ao nosso redor, físico, sensível em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por vezes errôneas e equivocadas, um exemplo claro dessa situação pode ser observado no comportamento da mídia no Brasil, hoje controlado pela TV Globo, SBT, Band, Record, e onde a grande maioria de brasileiros, a única fonte de informação é a televisão.Como se sabe a TV controla a vida de milhares de brasileiros, ditando a hora de dormir, tipo de alimentação, bebida, decoração, lazer, viagem, compras, interfere nos processos eleitorais divulgados dados de pesquisas tendenciosas, em conformidade com seus interesses, um exemplo claro é o comportamento sempre duvidoso da Rede Globo de Televisão. 


Fonte:Sladeplayer.com

Enfim as pessoas quando somente usa a TV como fonte de informação fica a merce desse domínio, e repetindo o comportamento dos homens da caverna, estão aprisionadas na vida real de um sistema virtual.


Charge de Lucas Monteiro

Um sistema de imagens que ocupa o lugar principal da casa – geralmente na sala principal e onde o sofás e cadeiras ficam voltados para ela, como se fosse um altar de adoração. Para muitas famílias é exatamente isso. Segundo o IBGE, o brasileiro vê em média 3,9 horas de TV ao dia. Sabe o que isso significa? Quando você estiver com 70 anos, terá sepultado no tubo de imagem da TV, 10 anos ininterruptos da sua vida. Período suficiente para tornar qualquer um em zumbi, vida aniquilada, vazia, sem afeto, criatividade desperdiçada, e alienado da realidade que o cerca.

Mas nem sempre é fácil sair da caverna, talvez por isso Saramago em sua obra a Caverna adverte sobre a ideologia ao afirmar que diferente dos objetos, as pessoas não devem ser facilmente manipuladas. Objetos são estáticos, ficam largados em cantos, mas o ser humano não: é de sua natureza pensar, questionar e agir. Em outro momento elucidando a fraqueza do homem ante a ideologia e o seu domínio “Exposto assim, desarmado, com a cabeça caída para trás, a boca meio aberta, perdido em si mesmo, apresentava a imagem pungente de um abandono sem salvação, como um saco que se tivesse rompido e deixado escoar pelo caminho o que levava dentro.” (SARAMAGO, 2000, p. 41).





Fonte:zonacurva.com.

Mas com o mesmo afirma esse domínio não é definitivo e de alguma forma o homem vai despertar para esse domínio e reagir ante a dominação ideológica, e ao mesmo tempo não e tão fácil, como afirma o autor: " (...) Não vai ser fácil, uma pessoa não é como uma coisa que se larga num sítio e ali se deixa ficar, uma pessoa mexe-se, pensa, pergunta, duvida, investiga, quer saber, e se é verdade que, forçada pelo hábito da conformação, acaba, mais tarde ou mais cedo, por parecer que se submeteu aos objetos, não se julgue que tal submissão é, em todos os casos, definitiva. (SARAMAGO, 2000, p. 305)".

Por isso quando uma minoria da população quando começa a descobrir a verdade e se comportar de maneira diferente do habitual, ocorrem dificuldade para entender e apanhar o real (ofuscamento da visão ao sair da caverna) e para isso, precisamos nos esforçar, estudar, aprender, querer saber. O mundo fora da caverna representa o mundo real, que para Platão é o mundo inteligível por possuir Formas ou Ideias que guardam consigo uma identidade indestrutível e imóvel, garantindo o conhecimento dos seres sensíveis. 

O Filme Matrix 

No filme Matrix produção cinematográfica estado-unidense e australiana de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne. Lançado em março de 1999, a um custo de 65 milhões de dólares e que rendeu mais de 456 milhões, observa-se um exemplo de uma analogia moderna do Mito da Caverna de Platão (428/427).

O filme retrata uma condição em que nem sempre o que se vê constitui de fato a realidade, esse é caso do personagem do filme Matrix Thomas A. Anderson um entre os milhões de seres humanos adormecidos. Naturalmente conectado à Matrix, ignorava que o mundo em que vivia é diferente do que parece. Nesse mundo simulado, ele vive uma vida dupla.

Nas suas atividades legais, Thomas A. Anderson é um tranquilo programador para a "respeitável companhia de software" Metacortex. Mas Anderson também é um hacker de computador, que penetra em sistemas de computador ilegalmente e rouba informações, sob o seu apelido hacker de "Neo". Durante a sua vida como um hacker, Anderson descobre algo conhecido apenas como a "Matrix". E é descrita por Morpheus como uma vaga intuição de que Neo teve durante toda a sua vida: "que há algo de errado com o mundo".

A analogia que se pode fazer entre Matrix e o Mito de Platão e que em ambas condições os personagens pensam que estão de fato vendo ou vivendo a realidade, quando na verdade tudo é uma ilusão.


The Matrix é uma franquia de ficção científica criada pelos Irmãs Wachowski e distribuída pela Warner Bros e uma versão moderna do Mito da Caverna escrito por Platão. 

Mauricio de Souza

Um outro exemplo vem do Cartunista Mauricio de Souza fez uma versão publicada em revista de quadrinho. No youtube encontra-se o vídeo elucida a versão do Mito baseado na charge de quadrinhos representando a dominação e manipulação da televisão. O texto completo na forma de quadrinho para ser usado em sala de aula pode ser obtido clicando aqui nesse link.


Show de Truman

O filme “O Show de Truman”, dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey cria uma estrutura muito próxima da atual estrutura comportamental da sociedade contemporânea. A obra tem na sua origem primaria o pensamento filosóficos de Platão (Atenas, 428/427 – Atenas, 348/347 a.C). 

No filme, a vida do protagonista – Truman – é transmitida via satélite para todo o mundo, ou seja, um programa vinte e quatro horas, sete dias por semana. Entretanto, ele não tem ciência disso, acredita viver uma vida real. Essa realidade passa-se na pequena e pacata cidade de Seahaven, a qual é retratada como um lugar maravilhoso. A própria vida de Truman é apresentada de forma legal, apesar da exaustiva rotina.

Toda a “realidade” que Truman acredita vivenciar não passa de uma construção cinematográfica. A cidade, sua esposa, seu amigo, seu emprego, tudo não passa de uma representação. E é nesse ponto que o filme encontra-se com a vida na contemporaneidade. Vive-se no cotidiano sob o impacto constante da mídia, a qual nos proporciona uma “realidade” construída e nós como bons atores, participamos euforicamente do espetáculo da sociedade.

Hoje na condição igual ou parecida com a de  Truman, devemos questionar a realidade que nos é imposta, se os valores que nos são passados  condiz com o que somos levados a acreditar. É preciso ser mais que indivíduos robotizados e adestrados, pois o sistema sempre tentará seduzir-lhe com fábulas como se soubessem de tudo que sentimos e precisamos. Mas, não sabem, pois como diz Truman, eles não têm uma câmera em nossas cabeças. O que Christof queria para Truman, assim como o sistema hegemônico quer para nós é nos manter prisioneiros de uma realidade construída, impedindo-nos de encontrar a verdade.

Precisamos nos libertar das amarras impostas pela mídia, pois somos devemos ser donos de nos mesmos e valemos mais do que o sistema diz que valemos. Somos indivíduos na vida como ela é, sem cortes ou edição, sem ilusão ou maquiagem, ainda que para tanto, seja necessário o espírito explorador de Truman, ao invés de sermos meros personagens de um jogo fantasioso.

Referências:

1.The Myth of the Cave from The Republic by Plato BOOK VII. Disponível http://deakinphilosophicalsociety.com/texts/plato/caveallegory.
http://www.cmrj.ensino.eb.br/ensino/notas_aula/2bim2013/28HIS10.pdf.acesso20/10/201.2. BRANDÃO, V.C. As cavernas em A caverna: dialética, alegoria e multiplicidade de sentido em José Saramago Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas Dossiê: Saramago PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 02 N. 02 – jul/dez 2006.
3.SARAMAGO, J.S. A Caverna. Companhia da Letras, São Paulo, 2010.
4.Youtube.Canal Regina Côrtes. categoria Educação publicado em 04/05/2012.
5 obvious: http://obviousmag.org/genialmente_louco/2015/o-show-de-truman-o-homem-em-sua-propria-cela.html#ixzz4if7zBkpY Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook
6.RUSSELL, BRETAND.História da Filosofia. Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2015.